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MUDEI DE ESPAÇO
O template deste ficou surpreendentemente horroroso e eu preferi então um lugar mais simples.
Multiprocessador.blogspot.com
Aos poucos vou reformando e importanto as coisas pra lá...
beijos a todos
christiane
Escrito por christiane tassis às 23h54
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queria poder passar nove meses em uma placenta chamada oceano
Escrito por christiane tassis às 14h54
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Writing: The Beauty, the Wonder, and the Joy of Life
Escrevi meu primeiro livro num clima de muita tensão, principalmente nos últimos dias. Meu pai estava morrendo. Uma pessoa que eu gostava prometeu desaparecer e cumpriu rapidamente a promessa. No trabalho, um “colega” me cobrava concentração e dizia que eu estava fazendo chantagem emocional quando chegava ligeiramente atrasada, mesmo sabendo que eu havia passado a noite na UTI. E UTI de doente terminal, meu amigo, não é brincadeira. No mínimo você fica com sono. Dizem que os doentes terminais “sugam” a energia vital das pessoas. Odeio esta imagem. Acho que os doentes e os saudáveis só querem a vida, e a vida dá sono e cansa, principalmente quando está faltando. Então, eu estava cansada e insegura demais com o livro e com tudo, e, depois de dois anos de mudança e solidão para escrever este livro, eu me sentia em absoluta mudança e solidão, com o peso de cada milímetro destas palavras. Além do mais, assim como no livro, memória e imaginação, morte e vida se misturavam dramaticamente. Se no livro eu tentei extrair o peso de situações de dor e fragilidade, na vida não consegui fazer isto, de maneira nenhuma, naquela época. Custei a escrever sobre isto e agora acho que necessito. Literatura é arte, criação, mas a escrita tem também um poder catártico, "salvador". Escrever me dá dor e alegria, em diferentes proporções. Meu pai morreu um dia antes do lançamento do livro. Ele já estava doente e, assim como o meu personagem, vinha perdendo a memória. Eu não escrevi esta história baseada nele, a história simplesmente aconteceu durante e não foi nada confortável para mim, de modo que me afastava dele às vezes para tirar qualquer caráter “autobiográfico” do livro ou mesmo para não me sentir vampirizando a dor dos outros, que no caso, era também a minha. Até meu sangue doía. E, para lançar este livro, tive literalmente que doar meu sangue; papai tinha passado por várias transfusões e eu ajudei a repor. Fui para o Rio e Ouro Preto, onde aconteceram os primeiros lançamentos, numa tensão absurda. Além de tudo, sempre chovia muito. Foi o primeiro dia de caos aéreo. Depois de horas no aeroporto, o festival fretou um ônibus, e cheguei em Ouro Preto bem na hora da minha mesa, mal tive tempo de tomar um banho, nem tomei uma cervejinha para relaxar. Do palco, vi uma mesa de amigos, bem na minha direção. Todos olhavam para mim e choravam. Isso aconteceu depois que uma amiga falou algo no ouvido da outra. Na hora pensei: meu pai morreu. Não lembrei que eu havia dedicado o livro a ela. Ela estava chorando porque tinha acabado de saber isto, mas eu só soube depois. Era um momento em que eu sempre imaginei estar feliz, sempre quis ser escritora, conseguir editora neste país é difícil e blablablá. Foi muito difícil que isto estivesse se materializando em meio à tanto sofrimento. Eu não podia nem comemorar. No lançamento em Belo Horizonte, as pessoas não sabiam se me davam os pêsames ou os parabéns. Eu estava absolutamente cansada, foi uma noite de muita chuva e tristeza, a gente não conseguia nem sair da funerária de tanta chuva, a chuva corria vermelha pelas ladeiras de Belo Horizonte, aquela terra vermelha densa de Belo Horizonte. No outro dia, quando acordei, teria que estar na livraria, assinando páginas, cumprimentando pessoas e dando entrevistas. Quis desistir. Não tinha clima, definitivamente. A família do meu pai, absolutamente importante em todo este processo, e que tinha vindo do interior para o enterro, me convenceu do contrário e compareceu em peso – e leveza. No final foi uma catarse, um nascimento, o fim de um ciclo. Com o que tem de dor e delícia nisto. Lembro que quando voltei do lançamento no Rio, voltei sem livro. Queria muito mostrar a meu pai o livro, ainda que ele não entendesse mais nada. Consegui a tempo. Lembro que ele arregalou os olhos com muita veemência. Não sei se entendeu. Mas jamais me esquecerei dos olhos dele. São iguais aos meus. Hoje, quase um ano depois, não consigo parar de pensar naqueles dias. E no que eles me trouxeram de novo e de bom, apesar de tudo. Este livro me trouxe muita coisa boa. Conheci muita gente legal através dele. Recebi telefonemas, e-mails e mensagens legais, inclusive aqui. O livro virou roteiro, está virando vídeo, está na disciplina de Romance contemporâneo da Faculdade de Letras da UFMG e quem sabe vire outras coisas. Fico muito feliz. Gosto de ver quando as pessoas gostam. É também transformador. É transformador, por exemplo, saber que alguém recebeu meu livro de presente. Ou recebeu dois (!) livros de presente no mesmo dia, mesmo com todos estes livros incríveis que estão nas prateleiras, como uma amiga me contou. É transformador saber que teve gente que comprou o livro por causa de um post, aqui. E é muito gratificante – pelo menos para uma iniciante nos retornos, como eu, ver o que eu acabei de ver agora: um novo amigo ator me leu trechos do livro, e me emocionou muitíssimo. E me emocionou mais ainda quando vi que o livro que estava com ele estava todo grifado, não por ele: era emprestado de um outro amigo ator, muito querido, muito famoso, muito incrível, que viaja muito e quase não vejo, nem sabia que ele tinha comprado o livro. Eu sei que tem gente que odeia livro grifado, mas, meu amigo, eu acho que é porque não é o seu! Um viva para as páginas viradas, as páginas marcadas, os personagens fundamentais, os novos personagens e os que um dia serão devidamente esquecidos. E um maior para o novo livro, que não nasce com nenhuma carga, além daquela de existir.
Escrito por christiane tassis às 22h46
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fios desencapados
um fio sempre procura o outro, na minha bolsa. o fio do ipod se encontra com o fio do carregador do celular, e se enrosca. o colar que deixei na bolsa na hora da natação, surpreendentemente se move durante o tempo da piscina e se enrosca no fio do cordão da câmera. no meu armário, não há uma noite em que os colares não se enganchem dentro da caixa de bijouterias. na parede, tv a cabo, dvd e videocassete namoram sem discrição, assim como a banda larga, a impressora e o computador. pêlos de gato namoram com fios egípcios, meus cabelos namoram com os dele, no ralo do banheiro e, no sabonete, fios de diferentes gerações se encontram para morrer na lata de lixo. de cada história se puxa um fio e se faz uma adaptação.
Escrito por christiane tassis às 13h19
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A arte de fazer angu-de-caroço
A iguaria parece ser instantânea, tipo miojo, macdonalds, polenta rápida. De repente tudo estava bem, você estava feliz, ou pelo menos tranquila, e, como um tsunami, o angu empedrou. O caldo entornou. O mundo caiu. A batata assou.
Mas será que o angu-de-caroço é instantâneo mesmo?
Não importa qual o sabor – namoro, trabalho ou amizade. Para fazer o legítimo angu-de-caroço precisa acumular muitas coisas, e deixar quieto. Em fogo baixo. Sem mexer. Você sabe que seu colega tá a fim de te ferrar na empresa simplesmente porque está competindo com você. Mas vai deixando. Você sabe que sua amiga é uma vampira e só se aproxima para sugar coisas. Mas vai deixando. E você sabe muito bem que seu namorado anda pisando na bola e que vocês precisam esclarecer algumas coisas. Mas não quer mexer. Vai deixando levantar fervura.
Aí a panela apita. Inocentemente, o coleguinha maquiavélico fala uma pequena bobagem. Coisinha pouca. A sua amiga comete um pequeno deslize, ou não te escuta mais uma vez quando você precisa dela. E o seu namorado, coitado, te deixa esperando só um minuto sozinha no bar porque encontrou um prospect no banheiro. Aí a anguzeira mostra o seu talento. E toda anguzeira nata sabe que, para fazer o legítimo angu-de-caroço, precisa ter mão pesada. Sangue italiano. Que ferve igual aos melhores sugos. Borbulha como as legítimas polentas. Ela então pega a panela de pau e roda a baiana. Despeja o angu quente na cabeça da pessoa. Atira a tampa no chão. Coloca a mão do pobre na chapa quente do fogão a lenha. Pronto, agora é só comer, passar mal e levar a culpa pelo prato horrível que eles fizeram, mas que você serviu.
Escrito por christiane tassis às 17h04
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“O sexo contém tudo, corpos, almas, Significados, provas, purezas, delicadezas, resultados, promulgações, Cantos, ordens, saúde, orgulho, o mistério materno, o leite seminal, Todas as esperanças, favores, dádivas, todas as paixões, amores, belezas, delícias da terra, Todos os governos, juízes, deuses, pessoas acatadas da terra, Estão contidos no sexo como partes dele mesmo e justificações dele mesmo.”
Walt Whitman
Escrito por christiane tassis às 17h53
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Elogio da fissura
Como alguém se torna diferente do que é, continuando a ser o mesmo? Como alguém se torna o que é, não sendo mais o que é? Estou ficando com a boca fina. Vejo nas fotos. Minhas pálpebras às vezes parecem maiores que meus olhos. Quase tampam meus olhos. Isso me incomodava profundamente. Escrevo “incomodava”, quando poderia dizer “incomoda”. Mas o tempo está passando também para os tempos verbais, eles também se modificam. Estou cada dia mais diferente. E até meus olhos, que não se enrugam, já não estão iguais. (Depois que me operei da miopia, vejo melhor com a idade) Os olhos estão criando raízes. Mas não se fixam mais em nenhuma órbita: criam rizomas. Estão conectados ao que quero, não quero e não queria. A tudo que vi e ainda quero ver.
Se olho meu olho, vejo que sou eu mesma, com tudo o que não fui, não pude, não quis ser ou que fui sem saber que era. Se vejo minhas fotos, quase penso que sou outra pessoa. Mas eu gosto: nas fotos que vejo hoje sei que quem está vendo sou eu, hoje, e não ontem. Antes pensava que tinha o rosto dos meus vinte anos. Não tenho mais. Mas já não estou ligando para minha superfície. "Basta que nos dissipemos um pouco, que saibamos estar na superfície, que estendamos nossa pele como um tambor, para que a ‘grande política’ comece."
Pode ser, pode não ser. Filosofaram. Às vezes acredito. E não estou preocupada com a instauração de nenhuma convicção. Nunca estive. Já fui condenada por não tê-las, ou de tê-las frouxas. Nunca quis ter domínio sobre nada, a não ser, de vez em quando, sobre mim mesma. Mesmo assim só quando achei necessário. Se sou insegura é porque sou capitã, não sou marujo. Não obedeço ordens nem tenho trabalho a cumprir: comando meu barco e como o vento muda eu tenho que parar para pensar. Busco cada vez mais a dúvida, o descontrole, mas não estou num barco à deriva. Quem me descontrola sou eu. Quando me descontrolo estou tentando ser ou deixar de ser. Não dependo de vento nem de maré. Gosto de onda. Gosto de me deixar partir. Estando despedaçada, sei quem sou, cada parte no chão. E pego de volta. O que é que sustenta este meu edifício? Quantas vezes ele suportaria ser implodido? Me reconstruo na horizontal. Na horizontal eu existo, porque é quando eu leio ou amo. Tenho tentado usar uma aliança aberta, mas ela às vezes se engancha no primeiro que passa. Aliança-anzol. Pequenas felicidades me enobrecem. Como por exemplo, parar de dizer “ele” e começar a dizer “você”. Não amo mais quem não me ama. Amo quem eu acho que me ama. Se estiver amando errado de novo, não tem problema: me arrependerei. Pois eu arrependo. Não se arrepender é não (re)ver. Nada me impede de mudar de opinião, se, no momento em que eu a defendo, sou eu, sinto que sou eu. Quando deixo de sentir que sou eu, é que sou eu, com uma nova possibilidade de ser. Fissura também é igual a amor, que é também igual a abismo. Também. Não só isto. Toda vida é um processo de implosão. Eu não me aguentaria viva tanto tempo se tivesse que carregar o mesmo corpo, o mesmo tronco, a mesma forma de existência. Em uma semana faço aniversário. Sou terra, signo de elemento terra, e em cima de mim, dentro de mim, co-existem todos os outros reinos – e algum reino poderia co-existir pacificamente? Estou fora e estou dentro continuamente, sou um poço sem fundo onde tudo pode caber, tudo pode cair em si.
Escrito por christiane tassis às 13h07
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Diante da dor dos outros
Esperava o analista na antesala do inferno/paraíso/purgatório onde ele coloca música clássica em alto volume, para que não escutemos os outros e talvez nos escutemos um pouco antes de entrar. Ele deixa também umas revistas Bravo, que não compro na banca para poder ler ali, tranquila, caso ele demore. Nunca escutei nada naquela antesala além da música, nunca estive preocupada em escutar ninguém que não fosse eu mesma, enquanto estava ali. Mas, nesse dia, a voz da mulher se sobrepunha à "nossa" música. “Se ele quer isso, isso vai ter...Faço o que ele faz, em dobro: se come muito, como muito; se fala muito, falo mais ainda...” A música voltava a ficar mais alta, eu não escutava mais a mulher. Voltava a ler. “Para que vou me preocupar com uma pessoa que não tem sentimento? Ele não tem sentimento”, ela continuava. Na revista, imagens de Clarice Lispector com textos em curva que saíam de seus olhos e talvez fosse Chopin o que tocava. Abri a bolsa, tirei um papel, reli o sonho que tinha anotado para não esquecer. Havia decidido não falar de mim às claras, mas pelas imagens que me formavam no escuro. “Será que ele não pensa no que está fazendo comigo?” a mulher gritava, e eu por um momento quis ouvir a voz do analista - o que será que ele dizia? Eu não ouvia direito nem a mulher, nem a música, nem o analista, só ouvia o relógio mudo do celular e as desculpas que teria que dizer quando chegasse ao trabalho. “Mas e se fosse com ele, tenho certeza que....” A conversa me parecia ridícula: que bobagem era aquela que aquela mulher dizia? E, ao mesmo tempo, será que era bobagem mesmo ou eu que não estava ouvindo direito? Pior: seria a minha conversa também ridícula aos ouvidos dele? O analista teria pressa, pensando em mim, que estava ali esperando? “Não entendo o sentido disto. Só se fosse...” Tentei não ouvir - realmente não ouvia o que ela continuou a dizer pelos próximos dez minutos que cronometrei: além do mais, ela iria atrasar meu trabalho, onde o tempo lógico é outro. De repente, sem que eu ouvisse a claque da sessão sendo encerrada, a porta se abriu, a mulher foi saindo com a cabeça baixa, o psicanalista atrás dela. Não pude ver o rosto dela, nem tentei: não queria. Apertei a mão do analista. Já não pensava nos problemas da mulher, nos meus: pensava nos problemas dele. Parecia cansado como nunca. "Triste", "desiludido", "horrorizado", "de saco cheio": como será que estas palavras atravessam corações e mentes dos bravos psicanalistas? Ou tudo seria apenas dedução minha? Quem sou eu para saber? Entrei, me sentei de um lado, ele de outro. Entre nós, em cima de sua mesa, um livro que vivo tentando ler: “A Lógica do Sentido”, de Gilles Deleuze. “Você gosta deste livro?” perguntei. Ele respondeu “siiim”, daquele jeito engraçado de responder alguma coisa que diz respeito só a ele. Algo como, “sim, mas vamos lá”. “Não, mas continuemos”.
Achei que seria melhor para todos se falássemos de filosofia. Queria proporcionar alguma coisa mais alegre para meu analista. Falei uma bobagem. Eu ri, ele riu, nós rimos. Mas num dado momento desdobrei o papel onde estava anotado meu sonho.
Escrito por christiane tassis às 22h51
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uma declaração de amor pode ser uma declaração de guerra.
Escrito por christiane tassis às 22h43
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- Porque você se droga? - Meu cérebro é o melhor lugar que eu conheço.
Escrito por christiane tassis às 22h25
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Sábado e quinta é lançamento do meu amigo Marcus Vinícius. É o segundo livro dele, que também tá fazendo o roteiro do meu livro, um projeto do Cineport, Festival de cinema de língua portuguesa que aconteceu este ano na Paraíba. Para saber mais sobre o festival, http://www.festivalcineport.com/. Eu apareço numa foto surreal com a Maria Zilda, ahahah.
O Cineport teve uma iniciativa muito legal este ano, capitaneada pela Elza Cataldo e Hugo Moss. Foram selecionados 6 roteiristas de Minas para roteirizar 6 livros da Língua Geral. Eles estão fazendo roteiros coordenados pelo Newton Cannito, que entre outras coisas escreveu episódios para o Cidade dos Homens e um manual de roteiro, o Manuel. Em novembro, os roteiros serão apresentados no Forum das Letras de Ouro Preto. O lançamento do Marcus na quinta é na Quixote, 19.30h.
Escrito por christiane tassis às 09h23
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Sonhei com um deputado esta noite. Foi assustador. Sempre fui uma pessoa de pesadelos: crimes sangrentos e os mais variados tipos de violência habitam minha cama à noite. Talvez eu escreva por causa deles. Não para repeti-los. Mas para substituí-los por algo melhor. E pela primeira vez, depois de tantos pesadelos-clichês, me surgiu um deputado. Um tipo de pesadelo que eu só costumava ter lendo jornais ou assistindo televisão. O deputado do pesadelo ou o pesadelo do deputado tinha todas as etnias do mal. Cara de Roberto Jefferson, Newton Cardoso, Marcos Valério e cia, ACM berrando, Alkmin, Maluf, anão do Orçamento misturado com aquele que matava os desafetos com serra elétrica: ele era vários. Um efeito morphy de todos os vampiros do Brasil. Aliás, os deputados são feios porque são deputados ou são deputados porque são feios?
No sonho, o deputado não fazia nada. Nem despachava nem roubava: apenas ria. Eu tentava escapar dele através de um longo corredor, e ele, que era vários, diziam: vou contar para o Lula. E de repente apareceu o Lula me cobrando prestações atrasadas de contribuição sindical, e os deputados levantavam minha ficha e descobriam pequenos impostos sonegados - frutas que comi no quintal da minha casa, impostos sobre sapos engolidos, textos que não publiquei, impostos sobre todos os sonhos que tive nos colchões deste país...E o pior é que foi sonho mesmo, não é uma metáfora nem uma piada. Vivo num país onde qualquer texto sobre ele parece piegas ou ridículo. Ou já foi dito, ou já foi sonhado. Não tenho conseguido sonhar com nada neste país, só consigo ter pesadelos.
Vamos ver o que o meu analista - ou os analistas econômicos - dirão sobre isto... ;)
Escrito por christiane tassis às 21h11
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"Subitamente pareceu-me que o quarto envelhecera como Matriona. Paredes e soalho estavam sem cor, tudo ficara turvo e obscuro; pareceu-me que as teias de aranha se tinham multiplicado. Não sei porquê, ao olhar através da janela pareceu-me que, por seu turno, o prédio em frente também escurecera, que o reboco das suas colunas se esboroava e caía, que as cornijas tinham enegrecido e aberto fendas e que as paredes, de um amarelo carregado e gritante, tinham perdido a cor...
Ou, então, um raio de sol que surgira subitamente por detrás de uma nuvem carregada de chuva e escondera-se de novo atrás dela, e tudo pareceu escurecer novamente diante dos meus olhos; ou talvez que diante de mim tenha num ápice perpassado, desagradável e triste, toda a perspectiva do meu futuro e eu me tenha visto, exatamente como sou hoje, quinze anos depois, envelhecido, no mesmo quarto, com a mesma Matriona, à qual todo esses anos não teriam tornado mais esperta.
Mas que só eu recorde a minha dor, Nastenka! Que eu não chame com amargas censuras uma nuvem sombria sobre a tua clara e tranqüila felicidade, que não desperte no teu coração o arrependimento nem o amargure com um secreto remorso ou o obrigue a bater com tristeza nos momentos de felicidade. Que não faça fenecer as ternas flores que colocarás nos teus cabelos negros no dia em que irás com ele ao altar... isso nunca! Nunca! Que o teu céu seja luminoso, que seja claro e sereno teu gentil sorriso e bendita sejas tu própria pelo minuto de felicidade e de alegria que proporcionaste a um coração solitário e grato.
Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Afinal, não basta isso para encher a vida inteira de um homem?..."
Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski
Escrito por christiane tassis às 22h47
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Foi o Augusto Sales que escreveu, no Paralelos. O Augusto sabe das coisas.
Viver de escrever: um grande conto de fadas
Viver de escrever pode ser o conto de fadas do século XXI, apura diário inglês
A firma de pesquisa de opinião britânica YouGov apurou, segundo notícia publicada no diário inglês The Guardian, que “ser escritor” é hoje o grande sonho dos jovens naquele país, onde, como no Brasil, viver apenas de escrever livros também se mostra na realidade um grande conto de fadas (sendo mais direto, para uns um verdadeiro conto do vigário).
A notícia em si e o comentário do jornalista John Crace sobre a descoberta é uma confirmação e tanto os que ambicionam a carreira literária profissional. Ele pondera que apesar desta recente e surpreendente atração pelo “ser escritor”, a maior parte dos manuscritos continuam a ser rejeitados e nem chega a ser lido pelas editoras e os poucos que conseguem emplacar uma publicação não vendem mais do que 1.000 cópias. E isso não é tudo: algo como 80% dos escritores profissionais naquele país ganha menos do que £10,000 por ano (algo como R$3 mil de salário mensal, sendo que o custo de vida na Grã Bretanha é muito, mas muito, superior ao Brasil).
A boa notícia disto tudo é que não estamos tão mal aqui ao sul do Atlântico. A dinâmica do mercado editorial do Reino Unido e do Brasil é muito diferente. O contingente dos que “escrevem para viver”, na verdade apenas “sobrevivem de escrever”, fazendo bicos aqui e ali, levando a vida numa espécie de montanha russa. Os que acertam no milhar são poucos: no caso inglês tem-se a JK Rowling, autora de Harry Potter e aqui temos nosso surpreendente Paulo Coelho, o mais famoso e bem sucedido autor brasileiro. Até nisso os dois países se parecem.
Por outro lado, tão como acontece aqui, apesar da dureza (literal) da profissão de escritor, na Inglaterra e no Brasil, multiplicam-se as feiras e eventos literários, crescem os cursos, oficinas e workshops dirigidos aos que admiram e desejam se iniciar na “profissão escritor”. E cada vez mais gente, com ajuda da internet, se lança a escrever e a sonhar com uma vida de glamour, prestígio e grana que não tem lastro com a realidade.
Conselho do diário britânico:
“So, by all means, write, if you enjoy it. But, if you value your sanity - and that of any readers - keep it to yourself. Keep the dream; just don''t give up the day job”
Algo como, se você gosta de escrever e sonha em se tornar escritor, sem problemas, escreva. Mas se você te um pouco de sanidade, guarde para você, persiga o sonho, mas não largue o emprego que paga suas contas para se dedicar exclusivamente a escrever.
Escrito por christiane tassis às 14h28
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o mundo quanto mais velho é mais novo as destruições nos surpreendem, mas não deixam de ser uma capacidade a ser revertida: se podemos usar toda esta força para destruir, o que aconteceria se a usássemos para construir? A destruição nunca é completa: o que sobra dela é seiva vital. (isso para quem quer estar vivo ou por acaso tem tempo de sobra para o arrependimento). Caos formando planetas, extinção de dinossauros, morte lenta nas cruzes, suicídio de Cristo: o início justifica o fim. Alguma coisa para mim acabou hoje: acabou ou começou? Demorou, mas o universo também nasceu de um luto e só hoje vejo que o meu cadáver anterior pode ser devidamente enterrado. Acho que tenho talento bastante para morrer e para continuar viva. Se até agora fui uma piada, um rascunho, um esboço, papel amassado, o que fui criando estes anos todos em minha oficina pode agora ser mostrado ao público. Claro que, enquanto eu estiver viva, nada será feito e mostrado em sua melhor forma, pois a experiência em mim me destrói e me refaz. E é o público quem molda a obra, é o público quem a destrói, não a assistindo.
Sempre começo com as partes que restaram da explosão. Ainda não fui carbonizada e da parte que fui para mim, para alguém, pode-se permitir o ofício da reconstrução.
E o que nascerá da destruição dos afetos, da ética - a natureza conseguirá se repor com a mesma energia criadora/destruidora, faminta/canibal? No momento, para agradecer e me recompor, só consigo o vegetarianismo - horror a qualquer tipo de sangue. Só me alimento de espíritos, de fotossíntese: que tudo comece/acabe em fluido ou vinho.
Escrito por christiane tassis às 09h29
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